22 setembro 2006

FÁBULA DOS GATOS

Deixe para ler no momento mais oportuno, mas jamais depois de 3 de
outubro de 2006. Você vai gostar dessa fábula.
Acredite.

FÁBULA DOS GATOS

Por Aristides Athayde (*)

Um fazendeiro plantava milho e o armazenava no paiol. Com o milho, o
fazendeiro alimentava as galinhas, os cavalos, as vacas, e todos os
outros bichos da fazenda. Os bichos da fazenda, por sua vez, garantiam
ao fazendeiro o seu sustento.
Os ratos insistiam em roubar o milho armazenado no paiol. Quem cuidava
do paiol era um cachorro. Um cachorro preto e grande. Quem cuidava do
paiol antes do cachorro cuidar do paiol era o pai do cachorro e, antes
do pai do cachorro, quem cuidava do paiol era o avô do cachorro. E
sempre foi assim, a família do cachorro cuidando do paiol, e não
deixando que os ratos comessem todo o milho.
Era um trabalho duro: os ratos não acabavam nunca e, chovesse ou fizesse
sol, lá estavam para roubar uma espiga aqui, outra ali. O cachorro não
tinha folga e para fazer frente à rapidez dos ratos, mantinha os
músculos em forma e os reflexos ligeiros.
Em compensação, o cachorro adorava o seu trabalho. Afinal, se não fosse
por ele, os ratos já teriam há muito tempo comido todo o milho e
acabado com a comida dos demais bichos. Em reconhecimento ao seu
trabalho, a bicharada elegeu o cachorro o presidente da fazenda.
E claro que o mando do presidente não era perfeito, discussões surgiam,
a insatisfação aparecia. Mas, de uma coisa todos podiam ter certeza:
quem trabalhasse, ganhava o seu quinhão.
Um dia, apareceu na fazenda um gato. Um gato magro e bigodudo. Tão
bigodudo que, se tivessem barba os gatos, esse poderia ser um gato
barbudo. O cachorro, como todo cachorro que se preza, ciente da sua
função e do valor do seu trabalho, latiu para o gato, quis que o gato
fosse embora. O cachorro sentia que aquele bicho de ar debochado,
malicioso, sem muito gosto para o trabalho, não poderia ser grande
coisa. O fazendeiro não ouviu o que o cachorro quis dizer, e o gato foi
ficando, foi ficando, foi ficando...
O gato, que não trabalhava (que, aliás, nunca tinha trabalhado), tinha
bastante tempo para conversar com os outros bichos da fazenda. E
chegava de mansinho junto da bicharada, magrinho, fraquinho, e começava
a miar. Os outros bichos, muito bonzinhos, paravam para escutar o que o
gato tinha para dizer:
- Miau, miau, ai, ai. O que vai ser de mim. Não existe lugar nesta
fazenda para um bichinho como eu, tão injustiçado, tão fraquinho! Veja,
não posso trabalhar, o sistema é tão injusto! Só por que não nasci forte
como o senhor, Seu Cavalo, só por que não posso dar
leite como Dona Vaca, não posso trabalhar!
O Seu Cachorro, o dono do poder, não avalia essas contingências
históricas e me mantém mergulhado nessa penúria...
- Mas, Seu Gato, e aquele trabalho que lhe ofereceram na casa, como
guardião da dispensa?
- Não aceitei, Seu Cavalo. Na verdade, prefiro continuar minha luta por
condições mais dignas!
No fim, depois de tanta ladainha, os bichos começaram a acreditar no
gato.
A sentir pena do gato. E o gato, que se dizia injustiçado. Que se fazia
passar por vítima. Que era explorado pelo sistema e, principalmente,
pelo cachorro que lhe negava tais milhos. Conquistou a simpatia dos
bichos. E fez com que os bichos acreditassem que ele, tão sofrido, tão
maltratado, iria garantir a todos melhores condições de vida.
Tanto miou, tanto fez, que um dia os bichos revoltados com a situação
de absoluta miserabilidade do gato e com a injustiça social reinante na
fazenda, resolveram destituir o cachorro. E de nada adiantou o cachorro
insistir que cuidar do paiol não era para qualquer um. Que ele havia
treinado muito para assumir essa função. Que os
ratos não eram mole, e não dariam trégua assim tão fácil.
Afastaram o cachorro e, por unanimidade, colocaram no seu lugar o gato.
Os bichos sabiam que o gato dantes nunca havia trabalhado. Que não tinha
sequer se preparado para assumir a função mais importante na fazenda.
Mas acreditaram que o gato, por ter sofrido mais do que ninguém com a
política do cachorro, traria ordem e moralidade à
administração do paiol.
No começo, tudo foi festa: no lombo de Seu Cavalo, viajava o gato para
outros sítios e fazendas, falando sobre a sua conquista. Contava aos
outros bichos que agora a fazenda vivia uma nova realidade. Tanta era a
festa, tanta era a euforia, tanta era a esperança, que os bichos não
perceberam que mais e mais gatos não paravam de chegar.
Gatos de todos os jeitos. Gatos vindos de todas as partes. Gatos, que em
comum com o gato-presidente, nunca tinham trabalhado na vida. E
gato-presidente, que curiosamente chamava todos os demais gatos de
companheiros, precisava arranjar uma função para
essa gataiada.
Então, um dia, quando Seu Cavalo apareceu para puxar o arado, percebeu
que, no seu lugar, um bando de gatos ocupava os arreios. E Dona Vaca, que
produzia o melhor leite da região, foi expulsa da estrebaria pelos
companheiros do gato-presidente. E as galinhas, no galinheiro não
moravam mais: nos poleiros, gatos e mais gatos fingiam
estar botando ovos.
E o gato-presidente remunerava prodigamente todos os seus companheiros.
Afinal, um trabalho em prol da coletividade desempenhavam...Como era de
se esperar, o gato-presidente (nunca havia trabalhado) não conseguia
cuidar do paiol.
Os ratos logo perceberam a situação: atacavam, como nunca haviam feito,
o milho da fazenda.Tão complicada ficou a situação que o gato-presidente
precisou conversar com o seu conselheiro. Um gato de óculos, que miava
de um jeito esquisito, puxando demais os "erres":
- Miarr, presidente. A coisa tá feia. Em nome da governabilidade da
fazenda, temos que nos aliar aos ratos!
- Companheiro, os fins justificam os meios!
Devemos passar aos demais bichos uma imagem de ordem e tranqüilidade! E
os gatos fizeram um pacto com os ratos: os ratos fingiam que não
roubavam o milho, os gatos fingiam que caçavam os ratos.
Dessa forma, a bicharada acreditava que os ratos estavam sendo
combatidos, e os ratos, que por baixo do pano recebiam suas
espiguinhas, mantinham os gatos no poder.
Entretanto, o milho foi acabando. E os bichos, que haviam acreditado na
conversa do gato-presidente, com fome, começaram a ficar insatisfeitos.
E foram todos reclamar com o gato-presidente.
Tarde demais. O paiol já estava infestado de ratos, ratos por toda
parte, ratos em tudo. Ratos e gatos, gordos, barbudos, aproveitando
tranqüilamente o que havia sobrado de milho no paiol enquanto o resto
da bicharada, os bichos que sabiam trabalhar, que davam duro, ficaram
sem comida. Sem comida, e traídos que se sentiram, sem o maior tesouro
de todos: a esperança de dias melhores.

(*) Aristides Athayde é advogado, professor de Direito Internacional da
Faculdade de Direito de Curitiba. Mestre pela Northwestern University
Chicago, Former Chairperson da Câmara de Comércio Brasil EUA (AMCHAM),
Membro da Câmara de Comércio Franco Brasileira e da ICC International
Chamber of Commerce.

Um ótimo fim de semana prá você.

Um comentário:

Yara disse...

Oi Luthi! Obrigada, agora posso dar meus pitacos por aqui! :o) Beijins procê!